domingo, 28 de novembro de 2010

Snoopy e a Teologia

Quem me conhece sabe que sou um grande amante do trabalho do cartunista americano Charles Schulz, criador da série Peanuts. Achei oportuno postar algo relacionado à sua obra aqui.

sábado, 27 de novembro de 2010

O Aniquilacionismo Desrespeita o Livre-Arbítrio?

Suponhamos que um homem se encontre à beira de um penhasco e resolva se lançar dele. Se partirmos da afirmação de que ele não é imortal alguém poderia concluir que por este fato ele não o fez voluntariamente? Na verdade, a capacidade em questão independe deste homem ser imortal ou não.

Assim também, as pessoas são livres para optar entre Deus e a destruição final e nem por isto deixam de usufruir por determinado momento desta escolha. Quem diz que para que o livre-arbítrio tenha sentido é necessário que os maus sempre venham a possuí-lo é que tem que provar esta alegação. Também Não deve-se ignorar que Deus não possui nenhuma obrigação de conceder-lhes tal atributo.

Em segundo lugar, parece-nos que Deus ao criar o livre arbítrio humano não tem o interesse de que por causa dele alguns o rejeitem enquanto outros o amem, mas sim que existam pessoas que se acheguem voluntariamente a Ele. A liberdade perpétua dos maus, por assim dizer, é descartável e despresável. Se assim como muitos imortalistas pregam, os maus não mais poderão se entregar a Cristo após a morte, que liberdade virtuosa haverá?

Muitos sustentam que a misericórdia de Deus é revelada na liberdade que as pessoas terão perpetuamente para pecar, mas desde quando isto pode ser chamado de liberdade? Creio que Deus revela Seu amor impedindo-as de continuarem com a prática horrorosa do pecado e que o aniquilacionismo por isto é muito mais sofisticado.

Impedir os pecadores que insistem em rejeitar aos Seus apelos de continuarem com a prática imunda será uma forma mais misericordiosa, mais madura e ao mesmo tempo mais suficiente de punição.

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Jesus Disse que João Batista Era Elias Reencarnado?

MATEUS 11:14

PROBLEMA:
Nesse versículo Jesus refere-se a João Batista como "Elias, que estava para vir" (cf. Mt 17:12; Mc 9:11-13). Mas, já que Elias havia morrido muitos séculos antes, João então seria uma reencarnação de Elias.

SOLUÇÃO: Há muitas razões pelas quais esse versículo não ensina a reencarnação. Em primeiro lugar, João e Elias não foram o mesmo ser - eles tiveram a mesma função. Jesus não estava ensinando que João Batista literalmente era Elias, mas apenas que João veio "no espírito e poder de Elias" (Lc 1:17), ou seja, para continuar o seu ministério profético.

Em segundo lugar, os discípulos de Jesus entenderam que ele estava falando de João Batista, já que Elias apareceu no monte da Transfiguração (Mt 17:10-13). Àquela altura, depois da vida e da morte de João Batista, e já que Elias ainda tinha o mesmo nome e autoconsciência, ele obviamente não tinha se reencarnado em João Batista.

Em terceiro lugar, Elias não se enquadra dentro do modelo da reencarnação por uma outra razão: é que ele não morreu. Ele foi tomado ao céu como Enoque, que "foi trasladado para não ver a morte" (2 Rs 2:11; cf. Hb 11:5). De acordo com o falso ensino da reencarnação, o que tradicionalmente é dito é que uma pessoa tem de morrer primeiro, para depois reencarnar-se num outro corpo.

Em quarto lugar, se houver qualquer dúvida quanto a essa passagem, ela deverá ser
entendida à luz do claro ensino das Escrituras contra a reencarnação. O autor de Hebreus, por exemplo, declara que "aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo" (Hb 9:27; cf. Jo 9:2).

Fonte: Manual Popular de Dúvidas, Eníguimas e "Contradições" da Bíblia - Norman Geisler.


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Mitos Que Tentam Explicar a Existência do Mal

"O primeiro demônio nasceu quando o primeiro homem se viu com a necessiade de explicar como é que pode haver tanto mal em um mundo em que existe um Deus Bom e Soberano. Agostinho e os judeus tentaram explicar a mesma coisa ao desenvolver as doutrinas da 'queda' de Adão e Eva e dos castigos divinos. O mal, porém é uma prova da existência de um Ser infinitamente Bom que determina um modelo universal."

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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

7 Motivos Para Não Pregar a Volta Iminente de Jesus

A maioria dos evangélicos crê em uma Volta iminente de Jesus. Em alguns grupos esta realidade é mais visível do que em outros.

Eles afirmam que a Volta de Jesus pode acontecer a qualquer momento. O problema entretanto, está no fato deles sempre tenderem para um imediatismo não justificado dizendo que os sinais de Sua Chegada revelam tal proximidade. O próprio Jesus não sabia a data de Sua Vinda, nem os Seus discípulos. Pelo que podemos ver na Bíblia estes também possuiam uma crença em uma Volta imediata de seu Mestre, mas se enganaram muitas vezes ao falar sobre o assunto.

Datas para a Volta de Jesus ou para o "fim do mundo" desde cedo insistem em invadir as igrejas e a população mundial, mas não são tão populares para mim. Penso que também há um grande erro aqui.

Um exemplo disso são as ondas que surgem de tempos em tempos falando sobre uma possível terceira Guerra Mundial, "decretos dominicais", código de barras, calamidades globais, "profecia" maia, desastres naturais, etc. Pode-se dizer que na visão destas pessoas se alguma coisa dá errada ou parece dar arrada é o fim do mundo que vem chegando, mas isto não condiz com a realidade.

Mesmo que partamos da idéia de que Deus oferece algum sinal mundial de Seu descontentamento com a raça humana ainda assim não há como se concluir inevitavelmente a Volta física do Seu Filho.

Não estou defendendo uma Volta "tardia" de Jesus, mas me opondo a crença em uma Volta iminente ou simplesmente próxima, embora um dia ela venha a condizer com a realidade assim como a primeira o fez por muito tempo. Creio que a melhor resposta que pode ser dada a este movimento não chega a ser "Jesus não virá tão cedo" já que não posso justificar tal alegação, nem mesmo que seja "eu não sei", mas sim "eu não sei e você também não sabe". Não temos motivos pra pregar uma breve Volta de Jesus. Ela pode, ao contrário, do que muitos pregam "tardar" mais ainda.

Creio que existem várias motivações para não nos apegarmos a este sistema teológico de alarmadores, mas talvez estas sejam as principais:

1. A data real da Volta de Jesus claramente não é revelada;

2. O fato da Volta poder ser imediata não quer dizer que seja imediata;

3. Os "sinais" do fim dos tempos são temerários e não implicam em uma Volta imediata já que ocorrências como tragédias podem descartar uma visão escatológica;

3. A crença em uma teórica Volta imediata guia-nos consciente e inconscientemente à fugir do presente garantido;

4. Desapontamentos e ceticismo não são consequências difíceis quando se prega injustificadamente uma Volta imediata;

6. A pregação de uma Volta imediata é quase tão danosa quanto marcar uma data expecífica par o fim dos tempos;

7. A crença em uma Volta não precisa ser imediata para possuir um valor significante ou alertador na escatologia cristã.

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domingo, 21 de novembro de 2010

E o Debate Com o Vinícius?

Depois de vários dias aguardando uma refutação coerente para a minha "teoria da existência moralmente aceitável" o imortalista Vinícius ainda não trouxe nenhuma novidade para o debate. Se limitou a manter alegações já derrubadas e repetí-las inconsistentemente crendo que desta maneira se tornem verdadeiras. Ao vê-lo apelar para a falácia ad nauseam pode-se deduzir a falta de plausibilidade da doutrina da "churrascaria cristã".

É triste vermos como a crença em uma coisa tão insana como um Deus abominável que tortura Suas criaturas por toda eternidade pode tornar as pessoas irracionais e comprometer a doutrina verdadeiramente cristã. Este é só um exemplo de que as pessoas não tem entendido a mensagem de Cristo e que devemos orar para que elas entendam tal absurdo.

Ver pessoas dadas a crer em uma infantilidade como esta é muito frustrante. Espero que Deus um dia possa guiá-las à verdade da mensagem de amor e santidade de Cristo. Deus cuide que fundamentalistas assim que estão cegos com estes mitos se livrem deste mal.

Tavez um dia na eternidade estas pessoas com suas mentes carnais ao chegarem no "céu" e não verem nenhum "inferno eterno" venham a lançar fogo as suas portas tentando criá-lo. Deus "surpreso", quem sabe dirá: "O que andaram dizendo de mim lá na Terra?"

Dado o fato de o aniquilacionismo promover um mundo moralmente perfeito e que reflete o caráter de Deus continua sendo a melhor explicação para um mundo sujeito ao juízo divino até que se prove o contrário.

Amém.

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Entrevista Com Mario Ferreira dos Santos

1 - Que fazer para que a Filosofia atinja as grandes massas populares e a juventude brasileira?

Fazer a Filosofia atingir as grandes massas populares será em primeiro lugar, obra que se cingirá a descê-la ao baixo grau de cultura de nossas massas populares. Precisamos estudar o que devemos fazer para erguê-las até à Filosofia, o que só poderá ser feito através de um desenvolvimento da cultura nacional – em linhas distintas das atuais, que tendam à Filosofia Positiva e não à Filosofia negativista e niilista que penetra em nossas escolas.

Quanto à juventude brasileira, este é o mais grave de nossos problemas: somos um país constituído de jovens, que formam a sua quase totalidade. Dado o baixo grau de cultura que temos, nossos estudantes passam a formar uma elite intelectual, o que demonstra a inferioridade em que nos encontramos.

Na História, a juventude sempre é o que decorre da sua própria natureza, apresentando aspectos positivos e negativos. Positivos, pela sua capacidade de ação e de idealismo; mas negativos, pela sua irreflexão, pelo seu despreparo e apressamento, que a leva a cair, facilmente, nas malhas dos grandes agitadores e a servir aos interesses de demagogos e políticos. Em todas as épocas da humanidade, uma parte da juventude mais ativa tendeu à luta a favor das más causas, facilitando-as.

Foram jovens que destruíram o Instituto Pitagórico, condenaram Sócrates, perseguiram Anaximandro, Aristóteles, assassinaram Hipátia de Alexandria e perseguiram Santo Alberto, S. Tomás de Aquino, S. Boaventura, quando mestres na Universidade de Paris; que uivavam pelas ruas pedindo a cabeça de Dante, de Savonarola, de Giordano Bruno; que acusavam Pasteur de “charlatão” e atiravam pedras em Einstein. Esses jovens são ativos, eficientes na sua parte destrutiva. Mas há também uma juventude construtiva.

Então, o que nos cabe fazer é orientar a juventude brasileira, dar-lhe suficiente sabedoria: clara, positiva, concreta, de modo a imunizá-la contra as tendências niilistas, para que possa pôr a sua capacidade de ação e de idealismo em algo concreto que beneficie o país. Fora disso, nada dará resultado.

2 - Quais são as correntes filosóficas que a reflexão filosófica deve levar em conta hoje?

Propriamente, julgamos que todas, porque encontramos hoje, na reflexão filosófica, a restauração ou o ressurgimento de velhos erros já refutados há séculos e milênios, que passam por inovações extraordinárias para aqueles que ignoram as aquisições do passado. É necessário, assim, revisar tudo, para mostrar que muitas novidades atuais nada mais são que velhos erros já refutados, travestidos de “verdades superantes”.

3 - As relações entre ciência e filosofia

Como a pergunta exigiria uma análise longa, sintetizar aqui o que penso, torna-se, para mim, um trabalho mais difícil do que expor as grandes contribuições que a ciência traz para as novas especulações filosóficas.

Não que esta venha modificar as linhas mestras da Filosofia Positiva e Concreta; veio, ao contrário, robustecê-las, mas trouxe contribuições que permitiram abrir campo não só para novas análises, como também para melhor colocação de outros problemas, além de uma revisão da Metodologia, sobretudo na parte da Dialética Concreta.

Trata-se da Dialética que possa de melhor modo aplicar-se à análise especulativa, para que ela não se torne meramente abstrata e sem correspondência com a realidade concreta. Basta que salientemos três pontos importantíssimos da ciência moderna. Primeiro, as pesquisas em torno da estrutura da matéria sensível, que levaram a ciência a penetrar na constituição da matéria, afastando-se o conceito de matéria do século dezenove.

Temos, assim, uma visão muito mais profunda e ampla do que aquela que os filósofos anteriores possuíam, também a Filosofia Positiva de séculos anteriores, aproximando-se a passos gigantescos da concepção que os pitagóricos haviam apresentado, e que fora considerada por muitos como extravagante, tornou-se muito mais compreensível.

Naturalmente, se alguém considera que o número é apenas o da matemática vulgar, o da extensão, da quantidade, ou o esquema da participação quantitativa, é lógico que a definição pitagórica de que as coisas são números passa a ter um sentido demasiadamente brutal e inaceitável.

Mas no momento que se compreender que número não é apenas isso, mas todo o esquema de participação de qualquer espécie de unidade, porque é a manifestação da unidade sob todos os seus aspectos e, portanto, sob todas as formas manifestativas em que se exija o numeroso e, portanto, participado, participante e logos da participação e que, segundo o logos, existem tantos números quantos logoi de participação, já muda completamente o sentido e então poder-se-á compreender que, segundo todos os possíveis aspectos em que se possa tomar a unidade, podemos construir matemáticas.

A ciência moderna, graças à penetração da Matemática, de início na parte quantitativa e depois no qualitativo – como se viu nas graduações – e nos relacionais – como se vê nos funtores – caminha hoje, inevitavelmente, para uma penetração cada vez maior no caminho que já fora percorrido pelos antigos pitagóricos.

O progresso científico processou-se e firmou-se na medida em que a ciência se matematizou; a ciência, por outro lado, separou-se da Filosofia, não devido a essa matematização, mas em virtude dos filósofos, que não compreenderam bem essa matematização, que deveria ter permanecido no campo da Filosofia Positiva, se realmente fosse concreta.

Por isso, o aparente abismo hodierno entre Filosofia e ciência pode perfeitamente ser ultrapassado, flanqueado pela Filosofia Concreta; é o que estamos fazendo com as nossas obras, apesar de muitos julgarem ser impossível a um brasileiro tentar fazê-lo.

Segundo, ainda no campo da pesquisa da estrutura da matéria, a descoberta das tensões, sobre as quais os físicos modernos, estarrecidos ante a sua realidade, procuram escamoteá-la, sem poder enfrentar, devidamente, a implicância que a aceitação desta realidade exigiria, e que os levaria a uma especulação filosófica para a qual não estão preparados.

A terceira contribuição importante é a referente à genética, que dá novos subsídios para a melhor compreensão do homem, para novos estudos antropológicos e uma nova reflexão em torno da significação do ser humano.

Poderíamos citar inúmeros outros aspectos, que também são imprescindíveis para a reflexão filosófica. Aliás, são tantos, que não caberiam, naturalmente, no espaço que temos para responder.

O que queremos apenas salientar é que devemos compreender que, das causas às leis e aos princípios de cada ciência, podemos alcançar uma sabedoria que está acima de toda ciência, uma sabedoria como a estudaram os grandes pensadores de todos os tempos, que é a “Décima Ciência” dos antigos, de que nos falava São Boaventura.

Essa Ciência, cabe-nos construí-la; será a metalinguagem do homem, unindo todos os especialistas numa visão global. Essa construção é a nossa grande tarefa atual, para que possamos aproveitar as grandes contribuições da ciência na elaboração de uma visão filosófica mais completa, mais perfeita e mais atuante apara um melhor futuro da humanidade.

Assim abriremos campo para novas análises, não mais as que colocavam mal as questões, de modo a torná-las, por isso mesmo, insolúveis e estéreis suas disputas, mas lançando novas disputas num campo mais fértil, mais criador, sob aspectos mais seguros, que poderão abrir ao homem novas perspectivas, com dados extraordinários, em benefício da cultura do homem de amanhã.

É diante deste horizonte, ante esta aurora que se anuncia, que me anima o que tenho realizado, muito embora eu não seja compreendido por muitos daqueles que se dizem amantes dessa sofia, a Matese, a sabedoria, a intuição sapiencial.

Posso, agora, completar a minha resposta ao item IV, dando, assim, o sentido da reflexão filosófica que se pode atribuir ao pensamento brasileiro, se ele quiser ser genuinamente filosófico.

Todos aqueles que, no Brasil, revelaram que possuíam mente filosófica – e não foram muito numerosos, porém brilhantes – tenderam sempre para um pensamento de caráter sintético, isto é, não ficaram totalmente presos às correntes filosóficas européias e dependentes delas. Sempre houve, entre nós, o desejo de abarcar o universal e esta característica é naturalmente justa e própria de um povo que vive em si mesmo este universal.

Por isso, o Brasil é, dos países atualmente existentes, mais capacitado para uma Filosofia universalizante ou, pelo menos, para uma nova linguagem filosófica, capaz de unir o pensamento que divergiu tão profundamente no campo já esgotado do pensamento europeu. Aqueles que não pensam assim, que não admitem essa possibilidade para nós, que continuem vivendo o seu modo de pensar. Nós preferimos, porém, divergir.

4 - Colaboração da Filosofia para humanizar a civilização

Esse item pode-se dividir em três: 1º) a humanização da civilização atual; 2 ) a evidenciação do valor da pessoa humana e 3º) a contribuição para a paz interior e felicidade do homem.

Primeiro: hoje, sobretudo no mundo livre, graças ao surgimento de um desejo ecumênico de aproximação dos homens, a humanização da civilização pode ser obtida – em parte, naturalmente – pela colaboração da Filosofia, pela revisão honesta de todos os grandes autores do passado, que foram caricaturizados, falsificados e apresentados num sentido que não é realmente o da sua Filosofia.

Poderíamos citar aqui, desde os pitagóricos até o século passado, autores que precisam ser revisados e reestruturados, para evitar-se aquelas “fables convenues”, aquelas mentiras históricas, os mitos e as interpretações falsas que se fazem da sua obra, com o simples intuito de denegri-los ou de favorecer outras posições.

Devemos tomar a seguinte posição: procurando primeiro tudo o que nos une, depois pensemos em estudar o que nos separa, para ver se, o que nos separa, pode sofrer modificações ou acomodações, que permitam que aquilo que nos une, fomente a humanização da própria civilização. Daí decorreria, pois, inevitavelmente, a segunda parte, sobre o valor da pessoa humana que, sem dúvida, sofreu, neste século, devido ao desenvolvimento dos totalitarismos, uma afronta à sua dignidade.

De todos os lados surge este tema, que pode e deve ser reestruturado em termos positivos e concretos. Finalmente, resultaria, então, a terceira parte, porque a paz, a tranqüilidade interior, a serenidade do espírito só podem ser alcançadas quando a mente assenta plenamente na Sabedoria, alcançando aquelas verdades, que estão ao nosso alcance e que são o fundamento de nossa verdadeira felicidade.

Seguimos em suma, o preceito de Pitágoras: “Ama a verdade até o martírio; não ames, porém, a verdade até à intolerância”! Procurando o que nos une realmente com todas as outras correntes e posições filosóficas, podemos abrir caminho para uma compreensão nos aspectos em que encontramos diferenças, que, muitas vezes, são apenas acidentais e não aptas a justificar uma separação profunda.

Esse já seria um caminho de maior aproximação entre os homens, porque, na medida em que nos dedicamos à leitura dos textos, vamos compreendendo a ação nefasta dos intermediários.

Sabemos que, na Filosofia e temos milhares de exemplos para citar, os intermediários, os discípulos, em regra geral, falsificam a obra dos mestres segundo determinados interesses. Os adversários caricaturizam segundo outros interesses, e o resultado é a deformação total do verdadeiro pensamento do autor.

A obra apresentada de segunda, terceira ou quarta mão está completamente desfigurada, o que permite ao autor um ataque fácil, pois não é difícil destruir caricaturas. Há casos, na Filosofia, em que autores tiveram suas obras refutadas antes de as terem publicado, eram, pois, obras conhecidas só pelo autor.

Muitos livros meus foram “refutados” antes de serem publicado, pelo simples fato de eu pretender tratar de tal ou qual matéria. Sem nem ao menos saberem qual a minha verdadeira posição num assunto, já haviam adversários para refutá-los. Não em público, porque isso eles não têm coragem de fazer, mas nos “corredores”.

5 - Filosofia nacional e o pensamento filosófico estrangeiro

Quando hoje se visita Portugal e se vê qual a atitude predominante neste país em relação ao seu patrimônio filosófico, espanta verificar a completa ignorância sobre o que de grande já se realizou na Filosofia Portuguesa.

Atualmente, nada se estuda, nas escolas, da Filosofia Portuguesa dos séculos XV, XVI e XVII. Parece que Portugal nada realizou; desconhece-se que, por quase dois séculos, a Filosofia Portuguesa imperou no mundo.

Desconhecem-se autores como: Petrus Hispano; Antonio a Santo Domínico,.O.P.: Francisco Suárez, S.J., que embora espanhol, viveu grande parte da sua vida intelectual em Portugal, onde adquiriu o seu saber, além dos outros dois Francisco Soares, lusitanos; Martim de Ledesma, espanhol de origem, cuja formação intelectual realizou-se igualmente em Portugal; Francisco a Cristo, O.S.A., e Egídio da Apresentação, .O.S.A, Andréias de Almada, S.J. ; Ludovico de Sotto Mairo, O.P.; Gabriel da Costa; Hector Pinto, O S.; Hieron; Francisco da Fonseca, O.E.S.A; Manoel Tavares, da Ordem carmelitana e Francisco Carreiro, da Ordem cisterciense; Jorge O Serrão, S.J.; Ferdnando Peres, embora nascido em Córdova, foi outro que adquiriu a sua cultura em Portugal; Ludovico de Molina, S.J., nascido na Espanha, viveu, contudo, a maior parte do seu tempo em Portugal, onde estudou e foi discípulo de Pedro da Fonseca, S.J., o Aristóteles português; Petrus Luís, S.J.; Antônio Carvalho, S.J.; Baltazar Álvares, S.J.; Hieronimus Fernandes, S.J.; Gaspar Gonçalves, S.J.; Ludovicus de Cerqueira, S.J.; Gaspar Vaz, S.J.; Diogo Alves, S.J.; Francisco de Gouvêa, S.J.; Ferdinando Rebelo, S.J.; Gaspar Gomes, S.J.; Benedictus Pereira, S.J.; Sebastião de Couto, S.J.; Blásio Viegas, S.J.; Emanuel de Góis, S.J.; Cosmas de Magalhães, S.J.; Pedro da Orta, S.J.; João de São Tomás, O.P., para citar apenas alguns, Portugal nos deu esta floração de filósofos, afora os mais conhecidos, como Sanches e outros, porque correspondem à atual maneira de filosofar no mundo moderno.

6 - Pergunta-se: Pode-se falar numa Filosofia de Portugal ou apenas numa Filosofia em Portugal?

Respondo: Pode-se falar, sim, numa Filosofia de Portugal e também numa Filosofia em Portugal.

Nós, brasileiros, contudo, por um espírito de colonialismo passivo, que nos domina até hoje, não cremos em nós mesmos. Só damos valor àquilo que tem origem estrangeira, e não seja de Portugal, porque também esta procedência não goza de nossa admiração. É natural, pois, que falar numa Filosofia Nacional cause manifestações de completa descrença.

Não acreditar que ela existe, nem tampouco que possa surgir, é atitude geral. Ainda hoje, “famosos professores de Filosofia” em Portugal dizem que é impossível criar-se uma Filosofia autóctone naquele país.

Para o português, o que vale é: “Penso, logo não existo” ou “Existo, logo não penso”. Podemos dizer que existe uma Filosofia no Brasil, mas se quiséssemos realmente falar numa Filosofia do Brasil, tal afirmação exigiria exame. Não conhecemos obra de criação propriamente peculiar. Se estamos tentando realizar algo nesse sentido, não podemos afirmar, por motivos óbvios, que o seja.

Podemos dizer que, pela nossa completa libertação de um passado metafísico, filosófico, histórico, que pese sobre nós e entrave as nossas possibilidades de ação, estamos em condições de criar uma Filosofia Ecumênica, uma Filosofia que seja realmente a Filosofia, por entre os muitos modos de filosofar.

A heterogeneidade nas modalidades de filosofar surge nos períodos de predominância do empresário utilitário no contexto de uma cultura. Quando este predomina, prevalece a moda que penetra em todos os setores: na Filosofia, na Arte etc., como acontece no mundo atual.

Esta variação tremenda de idéias, as quais surgem de todos os lados, não revela nenhuma pujança; é ao contrário, um índice de fraqueza, como a do período final da cultura grega e alexandrina. A Filosofia Positiva (fundada na positividade do ser, que alcança a perenidade, porque atinge as leis eternas) e Concreta, precisamente, porque, captando estas leis, relaciona todos os matizes de todos os aspectos formais – para dar-lhes uma unidade superior- é necessariamente Concreta, embora não no sentido vulgar do termo.

A Ciência, felizmente, conseguiu libertar-se da moda, como o fez a Matemática; por isso, como se construiu uma Matemática, uma Ciência, também se pode construir uma Filosofia.

Em que o pensamento brasileiro pode beneficiar-se do pensamento filosófico estrangeiro; reunindo o que há de positivo em todas as grandes realizações, provenham de onde provierem, construindo, depois, uma nova concreção e oferecendo-a ao mundo.

Esta é a única possibilidade que nos cabe e que estamos em condições de realizar, muito embora a maioria de nossos intelectuais não creia nisto e negue, terminantemente, que tal seja alcançável por nós, açulando-se com sanha contra quem tentar fazê-lo.

Deve abrir-se a reflexão filosófica para uma visão transcendental da realidade, na perspectiva das razões metafísicas?

Sem uma visão transcendental da realidade não pode haver Filosofia, porque se esta se distingue da Ciência por dedicar-se esta ao estudo das causas próximas e a Filosofia às causas primeiras e últimas, fatalmente esta deverá ter uma visão transcendental da realidade ou, pelo menos, tocá-la, abordá-la.

Ora, além das causas primeiras e últimas, temos de estudar os princípios, objeto fundamental da Mathesis Megiste – dos pitagóricos que chamamos Matese em português – cuja elaboração estou realizando em obra especial, que é a Axiomática baseada em Boécio. É a Décima ciência dos pitagóricos, a Contemplação sapiencial de São Boaventura, a Sapiência de Santo Tomás etc.

Esses princípios são matéria que constitui, propriamente, o que em todos os ciclos culturais, em todas as altas religiões se chama de Sabedoria: Sabedoria infusa ou Sabedoria em que o homem participa da Divindade, ou ainda a própria Sabedoria divina que o homem pode abordar, tocar e na qual consegue penetrar. São temas que, naturalmente, exigem discussões sobre os seus principais aspectos.

Mas o que é inegável, e não poderá deixar de abranger nenhuma visão filosófica em profundidade, é que há princípios eternos, leis eternas, que dominam todas as coisas, as quais não devem ser confundidas com as leis naturais nem com as da ciência. Este estudo levará, inevitavelmente, a uma visão transcendental da realidade, e sem ele não se faz Filosofia em profundidade, mas apenas de superfície.

Esta tendência, a de uma Filosofia que não ultrapassa a imanência da esquemática – que o homem pode construir apenas dentro de sua experiência mais vulgar – predomina no mundo moderno.

7 - Qual é a íntima conexão entre a posição gnosiológica, metafísica e ética; entre a teoria e a prática?

Parece-nos que aqui há duas perguntas: lª) a que interroga sobre íntima conexão entre a posição gnosiológica, metafísica e ética e 2ª) a íntima conexão entre a teoria e a prática.

Responderei à primeira, depois à outra. As dificuldades no campo da Gnosiologia, da Metafísica, inclusive no da Ética, surgem naquele filosofar que coloca o homem quase como um ser estranho ante o universo, o qual é impermeável para ele. Coloca, assim o homem numa situação de ser completamente ilhado, bloqueado, sem a menor possibilidade de penetração mais profunda.

As conseqüências deste pensamento pessimista, negativista, são as seguintes: não é possível, com os nossos meios cognoscitivos, alcançar o que nos transcende e dar, também à própria Ética, uma visão transcendental. Desta forma existe a tendência a considerar todo o filosofar do homem apenas como uma obra humana -–restringida, portanto, aos limites de nossa experiência – fundamentada nos dados de nossos sentidos e meios limitados de conhecimento.

Chega-se, ademais, à conclusão de que todo e qualquer esquema que construamos jamais corresponde à realidade que nos ultrapassa. Estamos em pleno agnosticismo, ceticismo, pessimismo, ficcionismo, pragmatismo, materialismo, niilismo, “desesperismo”; são conseqüências que surgiram do filosofar moderno.

Portanto, inegavelmente, a reflexão filosófica deve abrir-se para uma visão transcendental da realidade, sob pena de nos perdermos em armadilhas feitas por nós mesmos, afirmando uma deficiência que, na verdade, não temos.

A segunda parte da pergunta é importantíssima. Surgem nos gregos as discussões em torno da teoria e da prática, da Filosofia e da Ciência Especulativa, da Filosofia e da Ciência prática.

Avassalaram a atenção dos filósofos de maior responsabilidade intelectual e, apesar dos grandes trabalhos realizados – que fazem a nítida distinção entre a teoria e prática – que chegaram até nós, a maior parte deles é completamente desconhecida para aqueles que não tem nenhuma ligação com a Filosofia Positiva e Concreta, a qual pertence aos grandes ciclos culturais da humanidade.

Resultado: estamos hoje vivendo uma completa confusão entre teoria e prática. Estabelece-se determinadas proposições teóricas, julgando-se que elas são perfeitamente práticas e vice-versa. Algumas proposições, extraídas exclusivamente da prática, passam a constituir verdadeiros axiomas teóricos. O resultado é que vivemos hoje num mundo de utopias e quimeras; como conseqüência, há desilusões, cujo resultado final é desespero.

8 - A Filosofia é uma ciência objetiva ou uma produção pessoal, puramente subjetiva, do pensamento?

Aqui está um ponto de partida, verdadeiro divisor de águas. Desde o momento em que nos coloquemos na posição de quem pensa que a Filosofia é mera produção pessoal, puramente subjetiva do pensador, pomos aquela no campo da Estética.

Mas se admitimos que a Filosofia é uma ciência objetiva, isto é, uma busca humana da sophia suprema, que nos ultrapassa e transcende, ela adquire uma feição completamente distinta. Em todos os ciclos culturais, a Filosofia Positiva e Concreta é uma ciência objetiva. Em todos os momentos de decadência ou refluxo, que são vários, ela se torna puramente subjetiva.

A Filosofia Moderna está caindo no subjetivismo. Vimos até a tendência de um Heisenberg querendo colocar a própria Ciência no subjetivismo, pela sua teoria da indeterminação. Há necessidade de esclarecer-se, sobretudo para aqueles que querem fazer Filosofia, o seguinte: se desejam fazer obra puramente subjetiva, dediquem-se à Estética e deixem em paz a Filosofia, assim como se pede aos positivistas que façam Ciência e não Filosofia, porque são coisas que devem ser distinguidas, cuja confusão só atrasa o progresso intelectual da humanidade.

Filosofia exige demonstração e não meras asserções. Ademais, não devemos confundir filósofo com pensador que também trata de Filosofia – e muito menos ainda com professor de Filosofia. Em nossa época, o professor já se julga “dono” da Filosofia e, neste caso, há o perigo de se pensar que o fim é uma Filosofia de professores para professores de Filosofia.

9 - Que pensar sobre o problema do ateísmo contemporâneo?

Este tema é de uma vastidão tremenda, já que o ateísmo contemporâneo não surge a rigor de uma especulação filosófica, mas sim, de certas decepções de caráter mais ético do que filosófico. A meu ver, o ateísmo não surge, propriamente, em torno do Deus Uno e de seus atributos, mas, em torno dos atributos do Deus Treino, ou Deus pessoal ou dos atributos morais de Deus.

Não conheço nenhum trabalho, de nenhum ateísta, que se limite a atacar, especificamente, o Deus Uno. Conheço agnósticos e cépticos, mas não ateístas que tomem uma posição definitiva, negadora da possibilidade de um Ser Supremo. O ateísmo é sempre o produto de uma má colocação do problema de Deus.

Como “na Filosofia não há questões insolúveis, mas apenas mal colocadas”, o ateísmo moderno parece uma questão insolúvel, porque é mal colocada. Todas as ocasiões em que tive a oportunidade de me encontrar com ateístas, bastou-me pedir-lhes que descrevessem o que entendiam por Deus, para, nessa descrição, verificar quais as razões de seu ateísmo.

Foi-me fácil afastá-los de sua posição e colocá-los na aceitação de um Ser Supremo, o que é, para nós cristãos, o ponto de partida para uma total recuperação.

10 - Em que sentido a reflexão filosófica pode ter tonalidade cristã? Pode o cristianismo prestar benefícios ao filósofo?

Eis também outra questão que, bem colocada, é de solução fácil. O ponto de partida está em saber o que se entende por tonalidade cristã. Se considerarmos Cristo sob um aspecto, no qual podemos encontrar-nos quase todos, isto é, representando Ele o que o homem tem de mais alto na sua forma perfectiva, caminhando para a Divindade – ou mesmo, neste sentido, reaproximando-se do Ser Supremo – podemos afirmar que a reflexão filosófica não pode deixar de ter uma tonalidade cristã.

Não pode haver uma reflexão verdadeiramente filosófica que não erga o homem do menos para o mais. Portanto, o Cristianismo presta e sempre prestou benefícios ao filósofo, razão pela qual a Filosofia teve o seu maior desenvolvimento sob a égide do Cristianismo. Será também apenas através da concepção cristã, que se poderá realizar uma Filosofia superior capaz de unir os homens e fazê-los se compreenderem, pois Cristo representa, no homem, tudo quanto ele tem de mais elevado.

Já dizia Pitágoras que a verdadeira piedade – aliás, a eusébeia – era a justa e nobre veneração da Divindade, consistindo aquela na prática de nossos atos perfectivos superiores. Aproximando-nos, pois, de Deus na medida em que praticamos, de modo mais perfeito, os nossos atos. Em suma: a eusébeia (a verdadeira piedade), para os pitagóricos, é a assemelhação a Deus.

Este conceito não é exclusivo dos pitagóricos, mas de revelação universal, de todos os ciclos culturais. A verdadeira Filosofia caminha paralela à Religião, porque, se esta é o caminho para elevar o homem a Deus pelas ações, aquela é o caminho para elevar o homem – pela meditação, pelo pensamento, pela pesquisa, pela especulação – também, a Deus. Por isso, a Religião pertence à vida prática e a Filosofia sobretudo à vida especulativa – o que não impede que a Filosofia especule também sobre a vida prática e nela atue dentro das normas desta.

Isto corresponde à vontade, ao entendimento humano na sua ação em busca do bem; mas a Filosofia é a vontade e a especulação em busca da verdade. Consequentemente, o homem, à medida que especula pela verdade, aproxima-se do Ser Supremo e à proporção que busca o seu justo bem aproxima-se de Deus.

Esta é a razão por que o divórcio entre Filosofia e Religião – que se procurou fazer no mundo ocidental como também já se fez em outros ciclos culturais, em situações correspondentes a esta – é apenas uma covardia, a ser substituída por uma atitude heróica, enfrentando, mostrando os defeitos dessa posição e propondo os verdadeiros caminhos de ascensão.

Visto sob este aspecto, o Cristianismo é universal, porque pertence a todos os ciclos culturais. Ele foi o pensamento verdadeiro mais profundo de todos os ciclos culturais, sendo, por isso, inseparável da religião do homem nos seus aspectos perfectivos. É o homem enquanto Vontade, Entendimento e Amor, correspondendo, na concepção católica, às Três Pessoas da Trindade.

Caminhando neste sentido, retiraremos o homem do pântano em que está afundado, do estado de desespero no qual imergiu, podendo tornar a oferecer-lhe uma nova perspectiva e esperança, que poderá solidificar uma fé verdadeira e robusta.


Fonte: LADUSÃNS, S. Rumos da filosofia atual no Brasil, São Paulo, Loyola, 1976, pp. 407-42.
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O ressurgimento da filosofia, por quê?

O melhor motivo para o ressurgimento da filosofia é que a menos que um homem tenha uma filosofia, certas coisas horríveis acontecerão a ele. Ele será prático; ele será progressista; ele cultivará a eficiência; ele acreditará na evolução; ele realizará o trabalho dele mais próximo e imediato; ele se devotará a feitos, não a palavras. Assim, atingido por rajadas e mais rajadas de estupidez cega e destino aleatório, ele caminhará trôpego para uma morte miserável, sem nenhum conforto, exceto uma série de slogans; tais como esses que cataloguei acima.

Essas coisas são simples substitutos dos pensamentos. Em alguns casos, eles são pedaços esparsos do pensamento de alguém. Isso significa que um homem que se recusa a ter sua própria filosofia não terá nem mesmo a vantagem de uma fera, a de ser deixado à mercê de seus próprios instintos. Ele terá apenas os esgotados fragmentos de alguma filosofia alheia; o que as feras não precisam herdar; daí sua felicidade.

Os homens sempre têm uma de duas coisas: ou uma completa e consciente filosofia ou uma inconsciente aceitação de fragmentos dispersos de alguma incompleta, devastada e, freqüentemente, desacreditada filosofia. Esses fragmentos dispersos são as frases que eu citei: eficiência, evolução etc. A idéia de ser "prático", em si mesma, é tudo que resta de um Pragmatismo que não se sustenta. É impossível ser prático sem uma Pragma. E o que aconteceria se você abordasse o próximo homem prático que encontrasse e dissesse ao pobre pateta: “Onde está sua Pragma?” Fazer o trabalho mais próximo e imediato é um nonsense óbvio; mesmo assim, isso é repetido em muitos almanaques. Em noventa por cento dos casos, isso significaria fazer o trabalho a que você menos se adequasse, tal como limpar janelas ou esmurrar um policial.

"Feitos em vez de palavras" é, em si mesmo, um excelente exemplo de "Palavras em vez de pensamentos". Jogar uma pedra no lago é um feito e mandar um preso para a forca é uma palavra. Mas, há palavras verdadeiramente fúteis; quase inteiramente delas consiste esse tipo de jornalismo científico popular e filosófico.

Alguns têm medo de que a filosofia os entediará ou os confundirá; a razão é que eles não pensam apenas numa série de longas palavras, mas também num novelo de complicadas noções. Essas pessoas deixam de perceber toda a natureza da atual situação. Esses são os males que já existem; principalmente pelo desejo de uma filosofia. Os políticos e os jornais estão sempre usando longas palavras. Não se constitui em uma completa consolação o fato de eles as usarem erradamente. As relações políticas e sociais já são desesperadamente complicadas. Elas são muito mais complicadas do que qualquer página de metafísica medieval; a única diferença é que os medievalistas podiam desembaraçar o novelo e entender as complicações; os modernos não podem. As principais coisas práticas atuais, como corrupção financeira e política, são enormemente complicadas. Nos contentamos em tolerá-las porque nos contentamos em não entendê-las, em vez de compreendê-las. O mundo dos negócios precisa de metafísica – para simplificá-lo.

Eu sei que essas palavras serão recebidas com escárnio, e com a reafirmação mal-humorada de que não é momento para nonsense e paradoxo; e que o que é realmente desejável é um homem prático para ir em frente e limpar toda a bagunça. E um homem prático, sem dúvida, aparecerá, um de uma sucessão interminável de homens práticos; e ele, sem dúvida, irá em frente, e talvez "limpará" alguns milhões para si próprio e deixará uma bagunça maior ainda; tal como os homens práticos anteriores fizeram. A razão é perfeitamente simples. Esse tipo de pessoa excessivamente rude e sem consciência sempre aumenta a confusão; porque ela está à mercê de diferentes motivos ao mesmo tempo; e ele não os distingue. Um homem tem, já totalmente entrelaçado em sua mente, (1) um desejo entusiástico e humano por dinheiro, (2) um desejo pedante e superficial de estar progredindo, ou indo pelo caminho de todo mundo, (3) um desconforto por ser considerado muito velho para se relacionar com os jovens, (4) uma certa quantidade de um vago, mas genuíno, patriotismo ou espírito público, (5) uma incompreensão do erro cometido pelo Sr. H. G. Wells, na forma de um livro sobre a Evolução. Quando um homem tem todas essas coisas dentro de sua cabeça e nem sequer tenta resolvê-las, ele é chamado, pelo consenso e aclamação geral, um homem prático. Mas do homem prático não se pode esperar algum aprimoramento em relação à impraticável confusão; pois, ele não pode sequer organizar a confusão de sua própria mente, o que dizer de sua altamente complexa comunidade e civilização. Por alguma estranha razão, é comum dizer que esse tipo de homem prático "sabe o que faz". É claro que isso é exatamente o que ele não sabe. Ele pode, em alguns casos felizes, conhecer o que ele quer, como um cachorro ou um bebê de dois anos; mas mesmo assim, ele não sabe o porquê de seu desejo. E é o porquê e o como que deve ser considerado quando estamos elucidando a razão de uma cultura ou tradição ter se tornado tão confusa. O que precisamos, como os antigos entenderam, não é um político que é um negociante, mas um rei que é um filósofo.

Peço desculpas pela palavra "rei", que não é estritamente necessária no contexto; mas eu sugiro que seria uma das funções do filósofo ponderar sobre tais palavras e determinar se elas têm ou não importância. A República Romana e todos os seus cidadãos tinham um horror enorme da palavra "rei". Como conseqüência eles inventaram e nos impuseram a palavra "imperador". Os grandes republicanos que fundaram a América também tinham horror da palavra "rei"; que depois reapareceu com a especial qualificação de um Rei do Ferro, um Rei do Petróleo, um Rei do Porco, ou outros monarcas similares, feitos de materiais semelhantes. O negócio de um filósofo não é necessariamente condenar a inovação ou negar a distinção. Mas é sua tarefa perguntar-se exatamente o que é que ele ou os outros desgostam na palavra "rei". Se o que ele desgosta é um homem usando um casaco cheio de manchas, feito de pele de um animal chamado arminho, ou um homem que tinha um anel de metal colocado sobre sua cabeça por um clérigo, ele terá de decidir. Se o que ele desgosta é que tal casaco ou tal poder seja passado de pai para filho, ele perguntará se isso ocorre nas condições comerciais correntes. Mas, de qualquer forma, ele terá o hábito de testar a coisa pela reflexão; por meio da idéia de que gosta ou desgosta; e não meramente pelo som da sílaba ou a aparência das letras da palavra.

Filosofia é meramente pensamento que foi cuidadosamente considerado. É, freqüentemente, muito enfadonho. Mas, o homem não tem alternativa, exceto entre ser influenciado pelo pensamento refletido ou ser influenciado pelo pensamento irrefletido. O último é o que comumente chamamos, hoje, de cultura e erudição. Mas o homem é sempre influenciado por pensamento de algum tipo, seu próprio ou de alguém; de alguém que ele confia ou de alguém de quem ele nunca ouviu falar, pensamento de primeira, segunda ou terceira mão; pensamento de lendas esquecidas ou de rumores não confirmados; mas sempre algo com a sombra de um sistema de valores e uma razão para preferência. Um homem testa qualquer coisa por meio de alguma coisa. A questão aqui é se ele alguma vez testa o teste.

Tomarei um exemplo, entre milhares que poderia escolher. Qual é a atitude de um homem comum ao ser informado sobre um evento extraordinário: um milagre? Quero dizer um tipo de coisa que é informalmente chamado de sobrenatural, mas que deveria ser chamado propriamente de preternatural. Pois, a palavra sobrenatural aplica-se somente ao que é mais elevado que o homem; e muitos milagres modernos são como se viessem de um lugar consideravelmente inferior. De qualquer forma, o que os homens modernos dizem quando se confrontam com algo que, aparentemente, não pode ser explicado naturalmente? Bem, a maioria dos homens modernos diz asneira. Quando uma tal coisa é mencionada, em romances e em histórias de jornais ou revistas, o primeiro comentário que se ouve é, "Mas, meu caro amigo, este é o século XX!" Vale a pena ter um pequeno treino em filosofia, se não por outras razões, pelo menos para não parecer tão surpreendentemente idiota. A afirmação tem, no todo, muito menos sentido ou significado do que, "Mas, meu caro amigo, estamos numa tarde de terça-feira." Se milagres não podem acontecer, eles não acontecem nem no século XX, nem no século XII. Mas se eles podem acontecer, ninguém pode provar que em algum momento determinado eles não possam acontecer. O melhor que pode ser dito para um cético é que ele não pode explicar o que ele quer dizer, e portanto, o que quer que ele queira dizer, ele não pode explicar o que diz. Mas se ele somente quer dizer que se poderia acreditar em milagres no século XII, mas que não se pode acreditar neles no século XX, então, ele está errado novamente, tanto em teoria quanto em fatos. Ele está errado em teoria, porque um inteligente reconhecimento de possibilidades não depende de datas mas de filosofia. Um ateu poderia ter desacreditado em milagre no primeiro século e um místico poderia continuar a acreditar em milagres no século XXI. E ele está errado em fatos, porque há fortes indícios que haverá muito misticismo e um grande número de milagres no século XXI; e há, certamente, um crescente número deles no século XX.

Mas, eu tomei aquela primeira resposta superficial porque há um significado no mero fato de que ela apareça em primeiro lugar; e sua própria superficialidade revela algo do subconsciente. É uma resposta quase automática; e palavras ditas automaticamente são de alguma importância em psicologia. Não sejamos tão severos com o valoroso cavalheiro que informa seu caro interlocutor que este é o século XX. Nas profundezas misteriosas de seu ser, mesmo aquela enorme asneira significa realmente alguma coisa. A questão é que ele não pode explicar o que ele quer dizer; e este é o argumento para uma melhor educação em filosofia. O que ele realmente quer dizer é algo como, "Há uma teoria a respeito desse misterioso universo para a qual mais e mais pessoas ficaram inclinadas durante a segunda metade do século XVIII e a primeira metade do XIX; e até este ponto pelo menos, essa teoria cresceu com um crescente número de invenções da ciência às quais devemos nossa presente organização – ou desorganização – social. Essa teoria afirma que causa e efeito têm, desde o início, operado numa seqüência ininterrupta como um destino fixo; e que não há nenhuma vontade por atrás ou no interior desse destino; de tal forma que ele deve trabalhar na ausência de tal vontade, como uma máquina deve funcionar sem a presença de um homem. Havia mais pessoas no século XIX que acreditavam nessa particular teoria do universo do que havia no século IX. Eu mesmo acredito nela; e portanto eu, obviamente, não posso acreditar em milagres." Isso faz completo sentido; mas também faz a contra-afirmação; "Eu não acredito nela; e portanto eu, obviamente, acredito em milagres."

A vantagem de um hábito filosófico elementar é que ele permite a um homem, por exemplo, entender uma afirmação como esta, "O fato de poder ou não poder haver exceções a um processo depende da natureza do processo." A desvantagem de não ter esse hábito é que um homem se tornará impaciente mesmo com um truísmo tão simples; e chama-lo-á lixo metafísico. Ele, então, disparará a seguinte afirmação: "Não se podem ter tais coisas no século XX"; o que é realmente um lixo. Mesmo assim, a última afirmação pode ser explicada a ele em termos suficientemente simples. Se um homem vê as águas de um rio caminhando rio abaixo, ano após ano, ele terá razão em considerar, podemos dizer em apostar, que isso acontecerá até que ele morra. Mas, ele não terá razão em dizer que as águas do rio não podem caminhar rio acima, até que ele saiba porque elas correm rio abaixo. Dizer que isso acontece por causa da gravidade responde a questão física mas não a filosófica. Somente se repete que há uma repetição; não se toca na questão mais profunda sobre se essa repetição pode ser alterada por algo proveniente do exterior. E isso depende da existência de algo no exterior. Por exemplo, suponha que um homem tenha visto o rio apenas num sonho. Ele poderia ter sonhado noventa e nove sonhos, sempre se repetindo e sempre com as águas fluindo rio abaixo. Mas, isso não evitaria que o centésimo sonho pudesse mostrar o rio subindo a montanha; porque o sonho é um sonho, e há algo exterior a ele. Mera repetição não prova realidade ou inevitabilidade. Devemos conhecer a natureza da coisa e a causa da repetição. Se a natureza da coisa é uma Criação, e a causa da coisa um Criador, em outras palavras, se a própria repetição é somente a repetição de algo desejado por uma pessoa, então, não é impossível para essa mesma pessoa desejar uma coisa diferente. Se um homem é um idiota para acreditar num Criador, então ele será um idiota para acreditar num milagre; mas não ao contrário. Ao contrário, ele é simplesmente um filósofo que é consistente com sua filosofia.

Um homem moderno é livre para escolher qualquer uma das filosofias. Mas, a verdadeira questão do homem moderno é que ele não conhece nem mesmo sua própria filosofia, mas somente sua própria fraseologia. Ele pode somente responder à próxima mensagem produzida pelo espiritualista, ou à próxima cura atestada por doutores em Lourdes, com a repetição do que são, geralmente, nada mais que frases; ou são, na melhor das hipóteses, preconceitos.

Assim, quando um brilhante homem como o Sr. H. G. Wells diz que tais idéias sobrenaturais se tornaram impossíveis para "pessoas inteligentes", ele não está (neste caso) falando como uma pessoa inteligente. Em outras palavras, ele não está falando como um filósofo; porque ele não está nem mesmo dizendo o que ele quer dizer. O que ele quer dizer não é "impossível para homens inteligentes", mas, "impossível para monistas inteligentes", ou, "impossível para deterministas inteligentes". Mas, não é uma negação da inteligência afirmar qualquer concepção lógica e coerente de um mundo tão misterioso. Não é uma negação da inteligência pensar que toda experiência é um sonho. Não é pouco inteligente pensá-la como uma ilusão, como alguns budistas fazem; muito menos pensá-la com um desejo criativo, como fazem os cristãos. Estamos sempre ouvindo que os homens não devem manter as divisões tão pronunciadas de suas religiões. Como um passo imediato em direção ao progresso, é mais urgente que eles sejam mais claros e mais pronunciadamente divididos em suas diferentes filosofias.

G. K. Chesterton tradução de Antônio Emílio Angueth de Araújo

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Série Pedobatismo e Objeções Refutadas

Pude um dia conhecer o excelente livro "Estudos Bíblicos Sobre o Batismo de Crianças" do escritor Philippe Landes e mudar a minha visão acerca da validade do pedobatismo. A argumentação apresentada alí é tão rica e competentemente desenvolvida que me vi forçado (com muito prazer) a considerá-lo como uma prática cristã coerente. Foi este livro que me abriu a mente para a crença no batismo infantil e me levou a ler mais trabalhos sobre o assunto. Irei fazer uma série onde algumas das mais populares objeções ao pedobatismo são analisadas e uma a uma refutadas:

Objeção n° 1: A objeção número um dos antipedobatistas é que as criancinhas não podem exercer uma fé pessoal em Cristo como o seu Salvador e por isso não devem ser balizadas. Baseia-se a objeção em versículos como Marcos 16:16: "O que crer e for batizado será salvo; mas c que não crer será condenado".

Resposta: Se essa objeção fosse válida, as criancinhas incapazes de fé pessoal seriam condenadas e perderse-iam, pois o texto citado afirma: "O que não crer será condenado". A criança, não podendo crer, seria condenada. E, no entanto, até mesmo os adversários do batismo infantil admitem que as criancinhas que morrem na infância são regeneradas e salvas.

O grande teólogo João Calvino, nas "Instituías da Religião Cristã" demonstra o absurdo da argumentação antipedobatista baseada em Marcos 16:16, pela citação de uma outra passagem análoga em que São Paulo afirma que não deve comer quem não quer trabalhar (II Tess. 3:10). Se esse preceito fosse aplicado às crianças, deveríamos deixá-las perecer de fome. Esse conselho do apóstolo manifestamente não é aplicável às criancinhas incapazes de trabalhar.

O contexto de Marcos 16:16 indica semelhantemente que esse texto se refere exclusivamente aos adultos capazes de ouvir o evangelho, compreendê-lo e crer n'Ele. A passagem nada diz sobre crianças incapazes de compreender o evangelho. Serão condenados apenas os que ouvem, entendem e rejeitam o Evangelho. Nada se prova pró ou contra o batismo infantil, porque neste passo não se cogita de crianças. O evangelho é pregado a pessoas capazes de compreendê-lo.

Convém notar, outrossim, que o batismo representa a regeneração operada pelo Espírito Santo no coração dos salvos e não tanto a fé humana que está germinalmente incluída na regeneração é um dos seus frutos. A fé é indispensável para adultos, mas mesmo para estes a fé seria impossível sem a sua prévia regeneração. Tudo depende da graça de Deus. Tanto na circuncisão como no batismo celebra-se e honra-se a regeneração mais do que a fé humana dos participantes dessas ordenanças. A parte indispensável é a obra da Graça de Deus simbolizada pelas duas ordenanças da circuncisão e do batismo. A fé é dispensável para a criança, uma vez que existam razões bíblicas para julgar que seja regenerada.

Os que alegam ser necessária a fé para o batismo infantil, se fossem coerentes, teriam de admitir a mesma necessidade para a circuncisão infantil, porque esta cerimónia significa a mesma regeneração representada pelo batismo, como já tivemos ocasião de provar. Quem argumenta contra o batismo infantil por causa da falta de fé das crianças, teria de rejeitar a circuncisão pelo mesmo motivo. Do contrário, colocar-se-ia na posição absurda de se opor àquilo que Deus ordenou, quando instituiu a circuncisão, sem exigir uma fé pessoal dos meninos circuncidados.

Objeção n.° 2: A segunda objeção dos antipedobatistas é sememelhante à primeira. Afirmam frequentemente que o batismo de crianças inconscientes é uma violação da sua liberdade de escolha pessoal.

Julga-se que os pais não possuem nenhum direito de decidir sobre a religião que os filhos devem seguir, mas antes devem deixá-los decidir essa questão individual e livremente, quando chegam à idade própria para escolher por si.

Resposta: É mister reconhecer que para pessoas adultas capazes de raciocinar e resolver os seus próprios problemas religiosos uma decisão de aceitação pessoal de Cristo como Salvador é absolutamente indispensável, mas, quando se trata de crianças inconscientes, os pais, de acordo com as Escrituras, são os seus legítimos representantes e devem agir em seu benefício. Assim fez Josué quando disse: "Quanto a mim e à minha casa serviremos ao Senhor" (Jos. 24:15). Josué decidiu qual seria a religião seguida pelos seus.

Nos pactos que Deus fez com o seu povo foram sempre reconhecidos os pais como os legítimos representantes dos filhos. Assim aconteceu com Adão (Rom. 5:19), com Noé (Gen. 9:8, 9) e com Abraão (Gen. 17:7). Na Nova Dispensação os pais continuam a representar os filhos, conforme a palavra autorizada de S. Pedro: "A promessa é para vós e para os vossos filhos (At. 2:30).

E é justamente por serem inconscientes e incapazes de agir por si mesmos que devemos agir pelos nossos filhinhos, decidir por eles e defender os seus interesses. Os pais decidem sobre a alimentação dos filhos, sobre o seu vestuário, sobre os seus brinquedos, sobre os seus companheiros e sobre as escolas que devem frequentar, sem que tudo isso seja considerado uma violação da sua liberdade individual. Que pensaríamos de pais que deixassem as criancinhas de tenra idade colocar na boca e engulir tudo quanto pudessem apanhar do chão? Se os pais zelam pela saúde física e moral dos filhos, por que não deverão, a exemplo do que fez Josué, decidir sobre a religião que devem seguir, sem prejuízo para a sua liberdade pessoal?

Muitos crentes piedosos, embora sejam adversários do batismo infantil, mandam os filhinhos ao departamento primário da escola dominical e ministram-lhes ensino religioso em casa, desde a sua mais tenra infância, como aconteceu com o menino Timóteo (II Tim. 1:5 e 3:15). Essas criancinhas aprendem na escola de Jesus fundada por Ele, quando disse: "Ide, pois e ensinai a todas as gentes, batizando-as em o nome
do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mat. 28:19). Se a criança pode ser um alunozinho na escola de Jesus, tem também direito ao batismo, o sinal visível da sua matrícula, e se o educar uma criança na religião de Deus não é uma violação da sua liberdade, muito menos o será aplicar-lhe o sinal exterior desse privilégio.

A herança religiosa que Deus promete aos pais para os filhos constitui para estes um grande privilégio e uma preciosa benção espiritual. Essa bela herança não deve ser recebida como uma imposição prejudicial à liberdade do indivíduo, mas antes como a mais valiosa herança que um pai pode legar ao filho. Foi essa, sem dúvida, a intenção de Josué, ao legar a sua religião aos filhos.

Tanto as leis civis como as religiosas determinam que os pais representem os filhos até que estes atinjam à maioridade. Os pais são responsáveis pelos bens e pela conduta dos filhos, sem que isso implique em uma violação das liberdades e dos direitos próprios de menores. Quando os pais adquirem propriedades de grande
valor, os filhos herdarão essa fortuna. Semelhantemente os crentes sinceros são herdeiros de Deus e coerdeíros de Cristo e legarão a sua preciosa herança aos filhos. Quem poderá tachar isso de violação de liberdade de consciência?

Ainda mais, o batismo infantil não é uma violação da liberdade individual, porque quando a criança chegar à idade adulta fará as suas próprias decisões, na maioria dos casos, muito naturalmente confirmará alegre e voluntariamente o que fizeram os pais crentes em seu nome, ou então, excepcionalmente, empregará a sua liberdade para escolher uma religião diferente da religião dos pais.

Os privilégios civis dos nossos filhinhos apresentam-nos uma significativa analogia aos seus direitos religiosos. Logo após o seu nascimento, registramos os seus nomes em cartório como brasileiros. As crianças nascidas no Brasil e filhas de pais brasileiros são tidas como brasileiras e gozam da proteção das leis do país.
Nisso não se vê nenhuma violação da sua liberdade de consciência. Chegando elas à maioridade, muito naturalmente confirmarão o que por elas fizeram os pais, mas, excepcionalmente, poderão emigrar para uma outra terra e naturalizar-se como cidadãos de um outro país. Um brasileiro nato, a quem se ensinou a amar a pátria, não abandonará com facilidade os seus privilégios de cidadania brasileira. Semelhantemente, um herdeiro das promessas de Deus, educado na religião cristã, não repudiará com facilidade a sua preciosa herança. E em tudo isso haverá alguma violação da liberdade de consciência?

Quem se opõe ao batismo de crianças, por julgar que seja uma violação da liberdade pessoal, teria logicamente que se opor à circuncisão infantil que admitidamente foi instituída por Deus e tem a mesma significação cerimonial. Do contrário, opor-se-ia ao próprio Deus.

Objeção n°. 3: Ainda outra objeção ao batismo infantil é a seguinte: não há no Novo Testamento nenhum mandamento expresso para batizar crianças e por isso não devem ser submetidas a esse rito. Exige-se uma ordem expressa de Jesus ou dos apóstolos para justificar essa prática.

Reposta: Um mandamento expresso para batizar crianças no Novo Testamento é desnecessário, porque os discípulos de Jesus bem sabiam que as crianças tinham sido incluídas no pacto que Deus fez com o Seu povo, concedendo-lhes o privilégio de pertencer à Igreja de Deus e que por isso deveriam receber o sinal visível dessa graça. Se esse privilégio das crianças tivesse sido ab-rogado, e então sim seria preciso que houvesse uma ordem expressa cassando esse direito das crianças. As leis não ab-rogadas continuam em vigor. Não há em todo o Novo Testamento nenhuma disposição que prive as crianças do aludido direito. O ónus probandi pesa sobre os adversários do batismo infantil para mostrar biblicamente que as crianças não devem ser balizadas.

No tempo de Jesus os judeus faziam discípulos ou prosélitos circuncidando-os, batizando-os e exigindo dos pais ou mtôres um sacrifício. Os filhos menores de prosélitos eram recebidos na Igreja judaica da mesma maneira. Uma vez que já era costume batizar as crianças de prosélitos, os discípulos de Jesus, recebendo uma
ordem para batizar as gentes, deviam entender que as crianças seriam também admitidas pelo rito do batismo.

Se não há no Novo Testamento nenhum mandamento expresso para batizar crianças, também não o há para guardar o domingo como dia de descanso ou para permitir que as mulheres participem da Santa Ceia, na Nova Dispensação. Ao que parece, somente homens participaram da primeira Santa Ceia, quando Jesus a instituiu. Os referidos costumes se justificam por inferências lógicas e por bem alicerçados princípios
bíblicos. O mesmo acontece com o batismo infantil e tudo o que se pode provar biblicamente, por meio de inferências claras e seguras, deve ser observado.

Objeção n.° 4: Alegam alguns adversários do batismo infantil que o batismo cristão não pode ser o substituto da circuncisão, porque este último rito é administrado a pessoas de ambos os sexos, conquanto a circuncisão tenha sido aplicada exclusivamente às crianças do sexo masculino.

Resposta: Na Velha Dispensação, as mulheres e as crianças do sexo feminino gozavam dos privilégios do pacto que Deus fez com o Seu povo, pela representação dos pais e maridos. Ninguém negará que as mulheres e as meninas israelitas do velho regime tenham pertencido ao povo de Deus. Elas tinham esse privilégio por terem sido representadas pelos homens seus parentes chegados. Quando uma mulher de qualquer uma das tribos de Israel se casava com um homem de outra tribo; ela passava a pertencer à tribo do marido. As mulheres não agiam por conta própria, mas eram dirigidas e representadas pelos homens. Nas próprias genealogias apareciam somente os nomes dos homens. As mulheres ocupavam uma posição de inferioridade.

No Novo Testamento, Nosso Senhor Jesus Cristo conferiu novos privilégios e direitos às mulheres. As pessoas do sexo feminino não mais ocupavam uma posição de inferioridade, pois no novo regime foi abolida a antiga distinção entre homens e mulheres. São Paulo o afirma em Gal. 3:27-29; "Forque tantos quantos fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Não pode haver judeu nem grego, não pode haver escravo nem livre, não pode haver homem nem mulher, pois todos sois um em Cristo Jesus. Mas, se vós sois de Cristo, então sois semente de Abraão, herdeiros segundo a promessa". No novo regime instituído por Jesus até mesmo os escravos se uniam à Igreja por conta própria e não por representação dos seus senhores. As palavras do apóstolo Paulo, acima citadas, levam-nos a concluir que o batismo deve ser aplicado a ambos os sexos, embora não tivesse sido assim com a circuncisão. O caso de Lídia, registrado em Atos 16:15, indica que as mães crentes, juntamente com os filhos, eram batizadas na Igreja Cristã, já se vê que na Nova Dispensação as mulheres pertenciam à Igreja por conta própria e não pela representação dos homens. Sendo assim, todos os membros da família deviam ser batizados, tanto os do sexo feminino como os do sexo masculino. Jesus deu à mulher, na sociedade e na igreja, uma posição muito mais elevada do que a que ela ocupava antes da era cristã. Eis, pois, o motivo por que as mulheres e as crianças do sexo feminino devem ser batizadas na igreja Cristã, embora para elas não houvesse um rito de iniciação na Igreja judaica.

Objeção n.° 5:
Os adversários do batismo infantil afirmam ser a circuncisão um distintivo de nacionalidade entre os judeus, sem significação religiosa, e julgam que por isso o batismo, tendo profunda significação religiosa, não pode ser o substituto da circuncisão.

Resposta: A circuncisão tem na Bíblia uma profunda significação religiosa, pois é o sinal da justificação (Rom. 4:11), ou regeneração do pecador, como o é o batismo. Ao tratar da justificação, o apóstolo Paulo declara que Abraão foi justificado antes de ser circuncidado e que para ele a circuncisão foi "o selo da justiça da fé que teve, quando não era circuncidado; para que fosse ele o pai de todos os que crêem (Rom. 4:10, II).

Já se vê que, para Abraão e sua descendência, a circuncisão tinha significação espiritual e religiosa. Era o selo da justificação que Paulo denomina justiça da fé.
Na mesma carta aos Romanos, o grande apóstolo aos gentios categoricamente confirma o catáter espiritual e religioso da circuncisão, nos seguintes termos: "Não é judeu aquele que o é exteriormente, nem é circuncisão o que o é exteriormente na carne; mas é judeu aquele que o é interiormente, a circuncisão é a do coração, no espírito e não letra; cujo louvor não vem dos homens, mas de Deus" (Rom. 2:28, 29).

Que São Paulo tinha a circuncisão como símbolo da regeneração provas ainda pelo seguinte trecho na sua carta aos Gálatas: "Porque nem a circuncisão é coisa alguma nem a incircuncisão, mas o ser uma nova criatura"(Gal. 6.15). O que tinha valor para Paulo era a significação espiritual da circuncisão.

Há, outrossim, inúmerosas passagens no Velho Testamento que se referem à circuncisão do coração, contrastando-a com a circuncisão carnal, emprestando-lhe desse modo uma significação religiosa. Quem quiser uma prova cabal do nosso asserto, leia os seguintes textos no Velho Testamento: Deut. 10:16 e 30:6; Jer. 4:4; 6:10 e 9:25, 26; Lev. 26:41 e Ezeq. 44:7. Nessas passagens a circuncisão é sinal de vida espiritual e
a incircuncisão é sinal de incredulidade e morte espiritual.

Não negamos que a circuncisão tivesse uma significação cívica para os israelitas, mas esse povo era a nação escolhida de Deus, o seu governo era teocrático e por isso a sua lealdade nacional tinha uma significação tanto religiosa como cívil. Nem sempre a profissão de fé por meio da circuncisão correspondia à realidade íntima da justificação ou da circuncisão do coração, mas isso acontece também com a profissão de fé pelo batismo. Os batizados dos nossos tempos nem todos são regenerados, mas nem por isso deixa o batismo de ter uma significação religiosa para os verdadeiros filhos espirituais de Abraão (Gal. 3:27-29).


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Militância do João Bobo

"Se o ateísmo implica em ausência de significado para a existência o que leva um ateu a ser militante? Não é a sua rejeição ao cristianismo uma consequência de uma crença em uma existência significativa? Mesmo que o ateísmo seja verdadeiro haveria alguma diferença em crer ou não crer em um Deus?"

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Familia, Liberdade e Salvação

"Mas, se vos parece mal o servirdes ao Senhor, escolhei hoje a quem haveis de servir; se aos deuses a quem serviram vossos pais, que estavam além do Rio, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais . Porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor." (Josué 24.15)

No protestantismo contemporâneo temos infelizmente visto o desenvolvimento da irracionalidade e o apego a crenças óbviamente mesquinhas e contraditórias. A teologia da saúde e da prosperidade e o carismatismo são alguns exemplos destas aberrações que iludem pessoas ingênuas e sedentas por felicidade.

O texto bíblico acima tem por muito tempo servido para confirmar a pregação de que todos os familiares dos cristãos serão salvos mais cedo ou mais tarde. Muitos líderes responsabilizam os membros de sua igreja pelo fato dos seus filhos, irmãos e pais não terem se convertido ainda. Os membros, por outro lado se sentem frustrados não sabendo se a culpa está na sua ausência de fé ou de testemunho cristão.

Muitas "Bíblias de promessas" trazem o versículo grifado como se fosse uma promessa de Deus para todos os cristãos autênticos, mas ao observarmos podemos ver que não se refere a uma promessa divina. Mesmo que fosse uma promessa de Deus para Josué e não de Josué para Deus deveríamos perceber que esta viria a ser uma promessa individual e não necessariamente aplicável a todos os demais cristãos.

Embora possuamos um dever cristão para com os nossos familiares não podemos esquecer que estes são livres para rejeitar ao apelo de Cristo. Não temos tal capacidade de "predestinar" a escolha de nossos entes queridos.

Paulo de Tarso foi um grande conhecedor deste verdade. Podemos vê-lo reconhecer a possibilidade de um cristão servir a Deus verdadeiramente enquando a sua casa o despreza. Ele mesmo diz em 1 Coríntios 7.15, 16:

"Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou irmã, não esta sujeito à servidão; mas Deus chamou-nos para a paz. Porque, de onde sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? Ou, de onde sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?"

Não devemos colocar sobre os nossos ombros responsabilidades que não possuímos para não nos sobrecarregarmos.

Não quero dizer porém, que não devemos lutar pela conversão destas pessoas. Quero dizer que devemos fazer isto tomando o cuidado de não criar falsas expectativas. Em caso de frustração, Deus e nossa nova família deverão fornecer o consolo necessário. Possuimos uma nova família composta por vários filhos de Deus espalhados pelo mundo, vivos e mortos:

"Então, Pedro começou a dizer-lhe: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos. Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna." Marcos 10:28- 30.

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sábado, 20 de novembro de 2010

A Crença na Doutrina da Trindade é Necessária à Salvação?

Muitos teólogos desenvolvem uma grande aversão a alguns grupos "heréticos" pelo simples fato destes não crerem na doutrina trinitariana. O problema não está necessariamente em que eles crêem nesta idéia cristã, mas porque se julgam os únicos áptos para a eternidade.

Estes teólogos erroneamente sustentam que pelo simples fato dos unicistas negarem tal doutrina que não poderão ser salvos. Os cristãos se satisfazem com as refutações teológicas ao sistema unicista para justificar a não salvação de seus opositores.

Não há, porém, nenhuma base bíblica para se concluir que a descrença na doutrina da Trindade (independente da doutrina ser verdadeira ou não) torna o cristão incapaz de alcançar a almejada salvação.

O texto mais utilizado para sustentar este preconceito é desrespeitado e totalmente distorcido. Observando o seu contexto fica explícito que o autor chama de anticristos aqueles que negam o cumprimento da profecia messiânica em Jesus e não a crença trinitariana.

"Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho. Todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai; aquele que confessa o Filho tem igualmente o Pai. (1 João 2:22-23)"

Além disto, é intelectualmente desonesto afirmar que todos os crentes da Bíblia eram crentes na Trindade. Temos nas Escrituras Sagradas pessoas que inquestionávelmente não criam na doutrina em questão ou que não entendiam a unidade existente entre Jesus e o Seu Pai.

Seria um erro absurdo que pessoas se perdessem simplesmente por não entender uma doutrina tão complexa como a proposta pela visão trinitariana.

Não crer na doutrina da Trindade, mesmo que ela seja verdadeira não é nenhum pecado.

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Bíblia, OVNIS e Dinossauros

Muitos cristãos fundamentalistas apelam para a Bíblia sempre que se vêem necessitados de responder qualquer coisa. O valor que estes dão à Bíblia seria algo muito produtivo se eles não acreditassem que ela possui uma explicação para todos os mistérios do universo. Ela não nos permite saber qual time irá ganhar o Brasileirão ou qual será a mais próxima separação entre as celebridades.

As tentativas em buscar revelar estes mistérios "biblicamente" não vão muito além de textos forçados que pessoas desejosas por respostas aceitam sem qualquer discernimento.

Já pude ver cristãos negarem fervorosamente a existência de seres inteligentes fora de nosso planeta pelo simples fato de não serem citados na Bíblia. Em alguns casos não somente negam, mas os descrevem como demônios disfarçados. Eles poderiam assim chegar a duvidar da própria existência.

A Bíblia não fala nada sobre dinossauros convivendo com seres humanos e sendo extintos em um dilúvio universal. Nada também sobre o atentado de 11 de setembro ou sobre a teoria da evolucão biológica.

A proposta bíblica é bem simples e nobre: revelar a Jesus. Ela não diz nada sobre óvnis, dinossauros ou sobre códigos secretos prevendo calamidades mundiais e não possui obrigação alguma de falar sobre estas questões. Passa por longe dela a obrigatoriedade e a intenção divina de executar esta função.

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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Exclusivismo Inconsistente

Segundo os teólogos Deus se revela de várias maneiras. Podemos encontrá-lo através da Bíblia, do Espírito Santo, de Jesus Cristo, de sonhos, de visões, etc.

O problema é que muitos destes teólogos que afirmam que Deus também se manifesta através da natureza rejeitam o fato de que as religiões possuem suas origens em um sistema contemplacionista e que estão sujeitas a revelação muito mais limitada de Deus. Existem vários religiosos não-cristãos pelo mundo que tem sinceramente buscado este ente sobrenatural em suas religiões. É absurdamente incoerente a afirmação de que todos eles não podem desfrutar de uma verdadeira intimidade com Deus e futuramente da eternidade, pois como uma pessoa pode ser tida como um mau filho ou uma má filha simplesmente porque não sabe mais informações sobre o seu Pai? Qual seria a finalidade então desta revelação natural?

Esta perspectiva cristã exclusivista da religião nos faria pensar também que um homem deve ser punido por matar outro homem quando não sabia que o que estava a espancar era um homem ou que quando lançamos várias bolinhas em suas mãos devemos cortar os seus pulsos se ele não escolher exatamente a bolinha "premiada". Não condiz com o caráter do Deus cristão a crença de que os adéptos de outras religiões deverão ser punidos simplesmente por não conhecê-Lo ou por não verem nesta vida motivos justificáveis para reconhecer Sua superioridade sobre as demais divindades. A questão desta punição ser "mais tolerante" em caso de tal ignorância ainda envolve "injustiça".

Uma das principais diferenças entre o Deus cristão e os demais deuses são os mitos que o cercam. Cristãos e pagão assim possuem simplesmente mitos divergentes acerca da divindade a que adoram, Aquele que se revela em Sua Criação.

Partindo desta perspectiva como poderemos entender a aversão bíblica as demais religiões? Talvez alguns escritores bíblicos não tenham entendido a questão por esta perspectiva ou estivessem mais preocupados em defender a superioridade do seu Deus e de seu povo sobre os demais.

Creio porém, que esta aversão seja justificável quando temos em mente que o cristianismo nos oferece uma visão mais abrangente de Deus e que as demais religiões podem levar-nos a um perigoso retrocesso em nosso conhecimento d'Ele. As outras religiões teoricamente estão mais sujetas a desenvolver hábitos estranhos. Elas podem ser um "caminho" para Deus e uma pedra de tropeço para um cristão. Esta perspectiva nos leva a tolerar a religião alheia como uma possível forma de contato com a verdadeira divindade, mas não ideal. E desejamos o contato ideal, pois a rejeição à revelação maior é um erro profundamente grave. Um Deus muito enfeitado pode deixar de ser o verdadeiro Deus e se tornar um ídolo falsamente adorado, não apenas um Deus com máscaras humanas. A natureza não nos revela apenas traços da existência de Deus, mas também traços de Seu eterno caráter.

Isto está bem longe de dizer que todas as religiões são verdadeiras e que tudo o que elas tem a oferecer é positivo e aceitável por Deus e pelo cristianismo. Nem mesmo quer dizer que todos os religiosos poderão desfrutar da bem-aventurança dos santos, pois embora muitos destes religiosos sejam irrepreensíveis dentro de sua crença seriam inconciliáveis com o novo estado. O exclusivismo é verdadeiro quando se trata da veracidade do Deus cristão e de Jesus como o Seu único Mediador.

Somos levados então a crer que o teólogo Karl Barth foi coerente ao dizer que todos os adéptos das outras religiões poderão apegar-se a Cristo e ao Seu sacrifício nesta vida ou na outra.

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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Teísmo, Ateísmo e Debates

"Um debate sobre a existência de Deus é um debate sobre se o debate em questão vale alguma coisa ou não."

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Duas Perspectivas Escatológicas, o Perdão Divino e a Eternidade

Geralmente os protestantes trabalham com a idéia de que o perdão divino está limitado ao tempo. Deus traça uma data para a Sua Volta, oferece um tempo intermediário entre a Sua primeira e Sua segunda Vinda para que os pecadores possam se arrepender dos seus pecadores e em seguida não aceita em qualquer caso que estes venham a "mudar de lado". Ficam portanto, tais pecadores escravos perpetuamente da danação independentemente de suas escolhas posteriores. Os adventistas costumam chamar este acontecimento de "fechamento da porta da Graça" e outros evangélicos embora, não ofereçam um nome específico para esta doutrina afirmam de certa forma a mesma coisa ao dizer que não haverá mais perdão para os pecadores após a morte, a Volta de Cristo, no "inferno" ou no "lago de fogo".

Como exemplo, podemos imaginar um homem muito rico que diz a uma multidão de mendigos famintos que até determina hora da noite oferecerá comida a quem bater na sua porta e que ao chegar algum deles pela madrugada se nega a atendê-lo, mesmo ciente de sua grande necessidade. Podemos inicialmente pensar que não há erro algum da parte do benfeitor ao não atender aos apelos do pobre necessitado após o horário marcado, afinal ele tem exercido voluntariamente um trabalho muito generoso, mas ao olharmos para aquele Jesus dos Evangelhos parece-me implausível tal atitude por parte d'Ele. A pregação de Jesus de que devemos perdoar 70 vezes 7 aos nossos inimigos me faz incapaz de crer que o perdão divino está limitado ao tempo finito.

Minha visão escatológica consiste na idéia de que Deus somente privará do Seu perdão aqueles que não oferecerem "esperança" de arrependimento. Nesta perspectiva podemos propor uma parábola em que o homem não ofereceu mais comida aos famintos porque estes estão definitivamente desinteressados em sua oferta ou porque não estão honestamente interessados nela. Neste caso o envolvimento das pessoas com o pecado e a sua insistente rejeição a Deus podem com o tempo cauterizar a sua consciência e torná-las incapazes de se arrepender sinceramente. Aqui, por não haver arrependimento não há perdão.

Deus não perdoa os demônios porque estes perderam esta Graça com o passar do tempo, mas simplesmente porque se negam a se arrepender sinceramente ficando fadados a sua escolha:

2 Timóteo 4. 1-4 nos diz: "Conjuro-te, pois, diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu reino,

Que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina.

Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências;

E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas."


Hebreus 6:4-6 pode nos dar uma melhor idéia desta postura:

"Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, e recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério."

Algumas parábolas de Jesus e algumas declarações bíblicas parecem negar esta minha afirmação, mas não podemos esquecer que o verdadeiro interesse dos autores bíblicos é anunciar a Sua Vinda, a salvação final dos santos e a punição dos perdidos.

Um exemplo parecido com o que foi por mim citado podemos encontrar na parábola da dez virgens relatada no Evangelho de Mateus, 25:1-13. Não creio que o interesse de Jesus ao ensiná-la é limitar o perdão de Deus temporalmente, assim como não era Seu interesse ensinar que os perdidos ficarão um tempo por engano no céu na parábola das bodas em Mateus, 22:1-14 ao perguntar:

"Meu amigo, como entraste aqui sem a túnica nupcial? O homem guardou silêncio. Então, disse o rei à sua gente: Atai-lhe as mãos e os pés e lançai-o nas trevas exteriores; aí é que haverá prantos e ranger de dentes, porquanto, muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos"

As parábolas de Jesus tem por interesse demonstrar uma verdade sobre uma questão mesmo que outra seja aparentemente negada. Ele não queria nelas falar de perdão como em outras oportunidades, mas de pena, esperança pela Sua vinda e justiça.

Talvez alguém faça uma objeção a esta visão dizendo que muitos rebeldes desinteressados em viver moralmente seriam salvos vendo esta possiblidade já que se tornar cristão ante o majestoso Trono de Deus parece ser algo muito fácil, mas devemos lembrar que o mero interesse não é um arrependimento sincero. Se este pecador estiver sinceramente arrependido ante o Seu julgamento não vejo nenhuma objeção inteligente à afirmação de que ele será salvo. Talves diante de Deus um ateu sincero diga: "Uau. Você existe mesmo!" e possa entrar no gozo eterno em seguida.

Segundo esta visão as dez virgens da parábola de Jesus não ficaram de fora do casamento do Noivo porque o Noivo não estava mais aberto para conceder perdão, mas porque sua busca por Ele consistia em mero interesse. Prova disto é que não estavam preparadas para o esperado encontro. Em nossa teologia os únicos culpados por não recebermos o perdão de Deus devemos ser nós mesmos.

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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Porquê Nosso Conhecimento de Deus Está Sujeito a Revelação dEle.

"Quando se trata de conhecer a Deus, toda a iniciativa depende dEle. Se Ele não se quiser revelar, nada do que façamos nos permitirá encontrá-lo."

C. S. Lewis


É fato que a revolução que vem se desenvolvendo nestas últimas seis décadas na filosofia anglo-americana acerca da respeitabilidade intelectual da existência de Deus é algo muito entusiasmante. Temos visto que grandes filósofos das universidades mais privilegiadas, que acreditam em Deus e na Bíblia tomaram o espaço que antes era dominado por céticos como Bertrand Russel, Willard Van Orman Quine e Alfred Ayer. Dawkins, Hitchens, Dennet e Harris por outro lado não possuem nehum discurso filosófico sofisticado para a questão da existência de Deus. Não há a necessidade de muito esforço para perceber que o livro "Deus, um Delírio", a alma do neoateísmo é uma aberração sem tamanho. Nesta revolução que temos visto na filosofia cristã podemos destacar vários nomes como Alvin Plantinga da Universidade de Notre Dame e filósofos da Universidade de Oxford como Richard Swinburne, Robert Merrihew Adams, Bryan Leftow, além de outros como Peter van Inwagen, Dallas Willard e Eleonor Stump.

A nova geração de filósofos tem defendido que Deus é a melhor explicação para a origem do universo, a fina-sintonia existente no mesmo e para a existência de valores morais objetivos. É cômico que os ateus sem argumentos contrários se limitam a não considerar com uma mente aberta a explicação dada as questões que envolvem os relatos da ressurreição de Jesus e afirmam que estes mesmos argumentos podem ser utilizados para se provar a existência de qualquer Deus e não necessariamente a do cristão. Ressaltam ainda a possibilidade de um exclusivismo do verdadeiro Deus e sua aversão aos adéptos das falsas religiões como uma incoerência da afirmação do cristianismo. "Talvez seja o Juju da montanha... e ele te queime no inferno" é tudo o que eles tem a dizer ao propor um exclusivismo que não é justificado e que não condiz com a realidade.

Recentemente pude assistir a um debate entre William Lane Craig, considerado o maior apologista cristão da atualidade e Jamal Badawi, pensador islâmico e ficou notório que o segundo simplesmente distribuiu ataques ao cristianismo sem apresentar argumento nenhum de que o islamismo é verdadeiro. A questão é que o cristianismo possui uma tão perfeita solidez em nossa sociedade que tem ficado muito difícil argumentar contra ele, mesmo que ele apresente alguns problemas.

Minha pergunta consistiu em "em que estas pessoas sem qualquer evidência crêem tão firmemente em sua religião?" e pude perceber que vários cristãos estão totalmente sem conhecimento deste alvorecer da fé cristã e sujeitos a mesma realidade de outros religiosos.

O argumento mais utilizado a favor do cristianismo é o que pode-se chamar de "argumento ressurrecional". O mesmo afirma que dadas as afirmações que envolvem a morte de Jesus e as evidências para a tumba vazia, os relatos sobre as aparições post-mortem e o surgimento da crença cristã na ressurreição de Jesus mesmo diante das mais contrárias circunstâncias a explicação sobrenatural é a que possui maior plausibilidade do que as explicações alternativas naturalistas.

Alguém poderia dizer que Deus por muito tempo se ocultou propositalmente da humanidade a fim de não ser incomodado. Foi surpreendido tentando se esconder eternamente do homem, mas este em sua astúcia flagrou Deus em Seu banho matinal. O problema em tal homem dizer isto é porque torna Deus um refém do conhecimento humano quando na verdade penso que as coisas são o contrário. Para isto irei unir três conceitos diferentes: a basicalidade da crença em Deus de Alvin Plantinga, O Deus enganador de René Descartes e a Revelação de Deus proposta por Clives Stanples Lewis na frase mencionada.

Suponhamos porém, que o verdadeiro Deus seja Alá. Os islâmicos pregam que o seu Deus iludiu os cristãos sobre a figura de Jesus e por isto não há necessariamente uma contradição entre a afirmação dos cristãos e as suas:

a) a melhor explicação para o túmulo vazio, as aparições post-mortem e o surgimento do cristianismo é que Jesus ressussitou dos mortos;

b) Alá iludiu os cristãos fazendo-os pensar que Jesus é o verdadeiro Deus.

Um islâmico poderia propor o seguinte argumento:

a) Alá possui motivos moralmente justificáveis para enganar os cristãos ou permitir que estes sejam enganados;

b) As evidências apontam ilusóriamente para o cristianismo como a verdadeira religião;

c) Através de um testemunho interior eu sei que Alá é o verdadeiro Deus;

d) Comunicar-me interiormente com Alá constitui uma crença básica, independente de evidências externas e portanto racional se Alá existir.


Creio que um islâmico poderia coerentemente oferecer esta explicação a um cristão caso Alá fosse o verdadeiro Deus. Parece-me que o fato de eu não ter este alegado encontro com Alá e que o cristianismo me oferece a explicação mais simples acerca da ressurreição de Jesus e do mundo que a postura mais inteligente é simplificar problemas em lugar de optar por "explicações mais elaboradas", mas percebo que esta é uma mera forma de demonstrar que nós é que somos reféns do conhecimento divino e de Sua Revelação de Si mesmo.

Não parece-me ser uma alegação absurda se feita por um religioso já que o próprio cristianismo não nega a possibilidade de ocorrências sobrenaturais fora de sua esfera e inegavelmente afirma a existência de demônios enganadores que podem desviar do verdadeiro caminho. Outros cristãos vão além e até mesmo apelam para a vinda futura de um falso Cristo que opera os mais impressionantes sinais e milagres e nos leva a concluir que nesta perspectiva sobrenaturalidade não é prova de divindade. Não possuímos ainda um "Xeque mate" cristão nestas discussões e não acredito que haja um problema nisto.

O nosso conhecimento está intimamente ligado à Revelação divina. Deus poderia muito bem criar um mundo em que aparentemente não tivessemos qualquer evidência de sua existência e assim mesmo existir. Poderia levar-nos sempre a concluir a sua inexistência como poderia fazer-nos também pensar que 2+2 são 5 todas as vezes que nos dedicássemos aos cálculos.

Talvez, Deus não possui muita necessidade de provar a Sua existência na história da humanidade porque sabe que o homem sempre esteve inclinado ou obrigado a isto ao crer em um sentido significativo para a sua própria existência e em valores morais objetivos. Se Deus criou um buraco no coração do homem e o homem mesmo que não pudesse ver evidência para crer n'Ele se sentisse constrangido a isto não há assim uma necessidade tão grande de Deus provar-Se a não ser no interior humano.

Não devemos de maneira nenhuma, portanto, descartar o principal argumento a favor da existência de Deus que muitos tem chamado de "argumento experiêncial". A única forma segura de conhecer o Deus verdadeiro. O Deus cristão esta aberto para este encontro.

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domingo, 7 de novembro de 2010

Deus Ama o Diabo?

Minha análise aqui creio ser muito filosófica, mas também muito teológica. Embora eu seja agnóstico em relação a existência do diabo e possua uma confissão pessoal não posso negar que além de seu valor teológico que um assunto em especial que o envolve pode muito nos ensinar sobre o amor de Deus e Sua natureza.

Na questão sobre a existência do diabo e a confissão da inerrância o erro dos inerrantistas é não entender que inspiração não implica necessariamente em inerrância. Se limitar a pressupor a doutrina da inerrência bíblica como um fato e conceber que os que divergem em tal ponto devem sustentar o ônus da prova constitui uma falácia da ignorância por considerar que sua visão é verdadeira simplesmente porque aparentemente não pode-se provar o contário.

Independentemente da existência do diabo ser real ou não a demonização promovida pelas igrejas cristãs e suas teorias conspiratórias tem tomado o lugar que deve privilegiar a Deus. Aliando isto ao fato de que a cultura brasileira está totalmente imersa nestas crenças e que possuímos uma grande influência por parte dos protestantismos pentecostal e neopentecostal podemos perceber que um dos sentimentos que estão relacionados aos demônios além do medo é o ódio.

Pode ficar tranquilo, pois não vou perder tempo falando sobre "pérolas" de Roger Morneau, Daniel Mastral, Josué Yrion, tio Chico, Mary Baxter, Bill Wiese, Rebecca Brown e outros. A proposta aqui é que sendo atacados constantemente pelas pregações sobre demônios e pelos extravagantes exorcismos somos levados à uma pergunta interessante: biblicamente Deus ama o diabo?

Eu já estava começando a ficar muito irritado com as apresentações de frases triunfalistas já prontas de alguns dos membros da minha igreja como "quem está revoltado com o diabo aqui?", "quem está com raiva do diabo?" ou "quem quer queimar o diabo?". Dá para se perceber com isto qual é o nível de interesse e instrução que a maioria deles possui sobre tais questões e como é difícil manter um diálogo que não se desvie rapidamente para este tipo de pergunta constrangedora.

Certa vez em um ônibus a caminho de casa esta foi uma questão abordada por mim e por um amigo meu. Ao perguntar-me sobre a perspectiva bíblica sobre o sentimento de Deus para com o diabo e os demônios ele teve uma grande surpresa: Segundo a Bíblia Deus ama o diabo, eu respondí.

A ironia por parte dele me irritou muito. Detestei a forma com que ele veio a me olhar. Com um olhar fuzilante que mais parecia dizer "eis aí mais um herege que precisa de ajuda e de um pouco de juízo" tentava me convencer do contrário já que esta minha crença, segundo ele, era tão absurda. Depois disto caímos em um tempestuoso debate. Me lembro ainda hoje como aquele dia foi horroroso.

Partindo do que as pessoas entendem por "diabo", um anjo caído, perdido e malígno eu entrei aos poucos no assunto. Eu me baseava em dois atributos conhecidos de Deus para defender minha posição de que Deus ama o diabo:

1. A Bíblia apresenta um Deus que ama incondicionalmente;
2. A Bíblia apresenta um Deus que é imutável.

Eu defendí que o amor de Deus não está limitado a postura do sujeito amado e que partindo do fato de que biblicamente Deus ama os pecadores e abomina o pecado deve-se concluir que o diabo pertence a este quadro. Se o pecador é mais ou menos culpado ou já está ou não condenado isto é totalmente irrelevante ante esta realidade já que na visão destes teólogos o diabo não é uma personificação do mal e a existência do mal independe dele.

Em meu segundo argumento eu defendí que dado o fato de que Deus é imutável deve-se chegar à conclusão de que Ele não odeia o diabo, do contrário seria necessário admitir que Ele não o criou com amor para negar tal mudança. Deus está fora do tempo, é onisciente e não pode mudar sua postura em relação ao seu sentimento pelo diabo mesmo que devido à uma rebelião defendida por parte da tradicão teologica pareça ter razões para tal. Se Deus não pode ficar surpreso com o diabo "caindo" ou mudando de lado não pode mudar de postura e odiá-lo depois que o criou com amor.

Eu sustentei diante de meu amigo que a única forma de eu mudar de opinião seria se ele provasse o contrário. Ele deveria primeiramente propor uma explicação conciliadora entre a afirmação de que Deus não ama o diabo e os Seus dois atributos por mim citados e em seguida argumentar porque deve-se teológicamente afirmar que Deus o odeia.

Parece-me que o que tem dificultado a compreensão das pessoas nesta proposta é confundir idéais bem íntimas, mas muito diferentes. Amar o diabo não quer dizer que deve-se pregar o Evangelho para ele ou crer na sua conversão, muito menos ainda quer dizer que se deve seguir sua filosofia ou abraçar sua "amizade". Isto não seria amor. Este implica simplesmente em seguir o mandamento divino de amar livremente todas as pessoas sem qualquer tipo de ressalva. O amor nos leva a termos uma mistura de alegria e tristeza com o triste fim do diabo e demais anjos.

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